“O Sol não foi apenas o objeto da minha pesquisa – ele me moldou e iluminou o caminho do meu tornar-me.”
“Os eclipses são os sinais de pontuação do universo, momentos em que a luz e a sombra coreografam uma pausa cósmica.”
Poucas pessoas dançaram com o Sol como Madhulika Guhathakurta. Cientista cidadã que viaja a bordo das expedições da Swan Hellenic, ela traz consigo décadas de experiência em heliofísica e a alma de uma contadora de histórias. Em férias da NASA, ela embarca numa nova missão – compartilhar a ciência e o espírito dos fenômenos solares com os viajantes no mar, dos céus árticos ao Oceano Austral…
Olá, Madhulika! O seu título A Heliofísica é poético e poderoso. Como ele passou a representá-la?
Madhulika: O termo “Sheliophysicist” surgiu como um jogo de palavras – uma fusão caprichosa de “she” e “heliophysicist”. Mas com o tempo tornou-se algo muito mais profundo: uma declaração de identidade. Fala da alegria e da responsabilidade que sinto como mulher que ilumina os mistérios do Sol num campo historicamente dominado por homens. É a minha forma de reivindicar espaço – não apenas o cósmico, mas também o intelectual e o emocional.
A senhora disse que a sua vida se mapeia nos ciclos solares. Pode explicar o que quis dizer?
Madhulika: O Sol não apenas nasce e se põe na minha vida – ele pulsa através dela, em ritmo e revelação. A minha jornada se mapeia em quatro ciclos solares, cada um como uma estrofe de um poema solar em constante evolução. O primeiro começou sob os céus do Colorado, onde obtive meu doutoramento e vislumbrei a coroa do Sol através de coronagrafos e eclipses. Foi um tempo de brilho sereno – de me apaixonar pela luz e pelo plasma, e descobrir que a ciência também pode ser sagrada. O segundo ardeu mais intensamente na NASA Goddard, onde lancei cargas úteis na missão SPARTAN 201 para a órbita – escoltada por astronautas. Foram anos ousados: lançar instrumentos, perseguir dados e aprender a navegar a coreografia entre a ousadia humana e o ritmo estelar. O Sol parecia próximo, como um parceiro na dança. O terceiro ciclo marcou a minha ascensão à liderança na NASA. Ajudei a conduzir missões como STEREO, SDO, Parker Solar Probe e Solar Orbiter do sonho ao lançamento. Foi um ciclo de visão – de política e persuasão, de fundir ciência com estratégia. O Sol tornou-se não apenas uma estrela a estudar, mas uma força para unir comunidades. Agora estou no quarto ciclo, onde regresso à narrativa. Entrelaço mito com magnetismo, percorro eclipses e exploro consciência e cosmos através das Artes e dos Observatórios da Imaginação. Este capítulo tem menos a ver com comandar missões e mais com despertar a maravilha – nos outros e em mim mesma. O Sol moldou-me – não apenas como cientista, mas como contadora de histórias. Ele não foi apenas o objeto da minha pesquisa – iluminou o caminho do meu tornar-me.
A senhora perseguiu eclipses pelo mundo inteiro. Quais deixaram a marca mais profunda?
Madhulika: O eclipse de 1991 – o meu primeiro – foi o mais longo do século. A escuridão engoliu o dia e compreendi, visceralmente, que o Sol não é fixo – ele se move, se esconde, se revela. Depois veio o eclipse de 2006 sobre a Líbia, um dos mais significativos. A ciência era fascinante, mas o contexto era extraordinário – reunir cientistas de diferentes lados de divisões políticas num lugar não conhecido pela diplomacia científica. Ali, na borda do Saara, encontramos uma linguagem comum – não apenas em física, mas em paz. O Grande Eclipse Americano de 2017 foi único – um fio solar estendendo-se por todos os Estados Unidos. Testemunhei-o no Oregon, no meio de uma multidão de caçadores de eclipses, famílias, cientistas e observadores do céu pela primeira vez. Por dois minutos e meio, o tempo parou e milhões de olhos se voltaram para o alto em maravilha coletiva. Foi o eclipse mais democratizado que jamais vi – espetáculo cósmico transformado em celebração nacional.
Soam como eventos inesquecíveis?
Madhulika: Sim, cada eclipse é uma impressão digital celeste – único, fugaz, inesquecível. Eles marcaram os capítulos da minha vida como marcos luminosos. O eclipse que vi na Antártida, em 2021, sussurrou numa tonalidade diferente. Não vi a coroa; o Oceano Austral tinha outros planos. Uma tempestade furiosa assolou enquanto navegávamos para dentro do caminho da totalidade, com ondas batendo como uma percussão celestial. E no entanto – algo profundo se desdobrou. Quando o eclipse atingiu o seu pico, uma escuridão mais profunda desceu por trás de nuvens já escuras. Não era a coroa brilhante de plasma que persegui por continentes – era uma sombra velada, pesada e primordial, lançada sobre um mar revolto e turbulento. Ali, no caos, o Sol me lembrou que a beleza nem sempre é luminosa. Às vezes, está no silêncio da expectativa não correspondida, na pura força elemental da natureza impondo-se. Mesmo sem a coroa, o momento não foi menos sagrado. Não vimos a luz – mas sentimos a virada do céu.

Reivindicando o Sol
As suas conferências mesclam mito com astrofísica. Por que essa combinação ressoa tanto?
Madhulika: Porque tanto a ciência quanto a narrativa são formas de dar sentido à maravilha. Os eclipses solares já foram dragões e presságios, deuses e portais. Mesmo com o Parker Solar Probe, estamos escrevendo um novo mito – o da coragem e da curiosidade. Quando falo de Surya dos Vedas ou da carruagem de Apolo ao lado da física do plasma, convido as pessoas a ver um continuum do anseio humano de compreender os céus.
O que mais surpreende as pessoas quando você explica as auroras?
Madhulika: Que as auroras são a impressão digital atmosférica da Terra das tempestades solares. Elas não são apenas luzes bonitas – são o campo magnético respondendo ao Sol. O fato de que partículas carregadas invisíveis vindas de 150 milhões de quilômetros de distância podem gerar uma poesia tão luminosa nos nossos céus? É aí que reside o espanto.
Qual é um detalhe sobre as auroras que viajantes experientes talvez não saibam?
Madhulika: Que as auroras não são simétricas. As luzes do Norte e do Sul não são um espelho uma da outra. Essa assimetria nos diz como a magnetosfera da Terra interage com o vento solar. É um lembrete científico de que mesmo os fenômenos mais simétricos podem ter dissonâncias ocultas.
O que mais a entusiasma no Parker Solar Probe?
Madhulika: O Parker é o Ícaro da humanidade, mas com um escudo térmico e uma carga científica. Durante décadas, os cientistas estudaram os mistérios da coroa à distância – por que ela é mais quente do que a superfície do Sol? O que acelera o vento solar? O Parker está finalmente voando por esse reino, não apenas observando, mas provando o plasma solar. É um ponto de virada, não apenas para a física solar, mas para nossa compreensão mais ampla das atmosferas estelares e do clima espacial.
A senhora chamou as erupções solares de “fogos de artifício do Sol.” Por que elas importam para nós aqui na Terra?
Madhulika: As erupções solares são rajadas de energia, como soluços solares, que podem perturbar o nosso mundo de alta tecnologia. Elas podem interromper sinais de rádio, afetar o GPS ou até desativar satélites. Para a maioria das pessoas, o clima espacial parece abstrato – até que a rota do seu voo mude ou a rede elétrica oscile. Essas erupções nos lembram que o clima da Terra não é o único que importa.

A Ciência da Maravilha
O que você espera que os hóspedes levem das suas conferências a bordo da Swan Hellenic?
Madhulika: Espero que sintam afinidade – com o cosmos, uns com os outros, com mentes curiosas ao longo dos séculos que observaram o céu com admiração. Não é preciso ser cientista para ser um explorador. Cada pergunta que você faz sobre o Sol continua a tradição mais antiga da humanidade: olhar para cima e perguntar por quê.
O que você está curiosa para explorar a seguir na sua jornada solar?
Madhulika: Estou atraída por como a IA e a ciência de dados estão remodelando a ciência. Quero testemunhar como as máquinas podem ajudar a decifrar os ritmos complexos do Sol e seu impacto na Terra e no meio ambiente. Pessoalmente, também estou animada para criar histórias mais imersivas, para fundir ciência, arte e voz em novas formas. Talvez até uma ode musical ao vento solar.
Você viajou por continentes para testemunhar eclipses solares em primeira mão. O que a continua atraindo a eles?
Madhulika: Os eclipses são os sinais de pontuação do universo – momentos em que a luz e a sombra coreografam uma pausa cósmica. O que me atrai é que não existem dois iguais: a cor do céu, os sons dos animais, a textura emocional – mudam a cada vez. São como sonetos escritos pelo cosmos, cada um numa tonalidade diferente.
Como você explica o clima espacial a pessoas que cruzam regiões como as zonas polares?
Madhulika: Nas regiões polares, você está na primeira fila do clima espacial – onde o escudo magnético da Terra abre suas cortinas para o vento solar. O Sol lança constantemente partículas carregadas em todas as direções, e quando essas partículas chegam à Terra, elas interagem com mais intensidade nos polos. É aqui que as linhas do campo magnético mergulham na nossa atmosfera, permitindo que as partículas solares entrem como dançarinos seguindo trilhas invisíveis. O resultado? Auroras, sim – mas também perturbações. Digo aos hóspedes: quando o seu GPS enlouquece, o seu rádio HF crepita ou o sinal do satélite oscila, pode não ser erro humano ou falha de hardware – pode ser o Sol, sussurrando através do vento solar, passando pelo seu navio com uma mão invisível. Mesmo num dia calmo e claro no mar, o Sol está agitando o espaço ao nosso redor. Frequentemente pensamos no clima como nuvens e chuva – mas o espaço tem o seu próprio clima. E assim como uma tempestade na Terra pode atrasar um voo, uma tempestade solar pode desviar voos polares, perturbar sistemas de navegação ou cegar satélites com radiação.
Longe das luzes da cidade, como esses ambientes naturais enriquecem o aprendizado cósmico?
Madhulika: Sem as luzes da cidade, o céu nos retorna em toda a sua majestade. Surge uma espécie de clareza ancestral – onde o Cinturão de Órion e a Via Láctea parecem menos abstrações e mais companheiros. Nesses momentos, a ciência se torna não apenas informativa, mas íntima.

Sabedoria e as estrelas
Qual é uma coisa que você gostaria que todos compreendessem sobre o Sol?
Madhulika: Que o Sol não é uma bola de fogo estática. É uma estrela dinâmica e viva, com humores, padrões e erupções. Ele respira em loops magnéticos, canta em ondas de plasma e esculpe o próprio ambiente do nosso sistema solar. Compreender o Sol é compreender o motor da vida!
Como o estudo do Sol mudou a sua forma de ver a Terra?
Madhulika: Tornou-me reverente. A Terra não está isolada – ela é embalada pelo vento solar, protegida por um escudo magnético e aquecida por uma estrela variável. Estudar a heliofísica me fez perceber quão precário e precioso é o equilíbrio da Terra, e quão profundamente estamos conectados a forças muito além da nossa atmosfera.
Que conselho você daria a aspirantes a cientistas espaciais?
Madhulika: Siga a sua curiosidade, não apenas suas credenciais. A ciência espacial prospera na polinização cruzada – de ideias, disciplinas e perspectivas. Aprenda matemática, mas também aprenda a maravilhar-se. Busque mentores, viaje muito, leia mitos além de periódicos técnicos. E lembre-se: a sua perspectiva única é o seu superpoder.
Como começou a sua ligação com o SETI?
Madhulika: O meu amor pelo SETI começou muito antes de qualquer envolvimento formal. Começou com uma pergunta: Estamos sozinhos? Lembro-me de encontrar a Equação de Drake pela primeira vez como jovem cientista. Não era apenas uma equação; era um poema escrito em variáveis – cada termo um sussurro de possibilidade. Ela deu forma à maravilha e abriu espaço para sonhar na linguagem da ciência. Ao longo dos anos, enquanto estudava o nosso Sol – a fonte de energia, de química, de ritmo – não pude deixar de perguntar: E as outras estrelas? Que danças poderiam se desenrolar na sua luz? O SETI, para mim, não é apenas uma busca por sinais. É um espelho. Nos convida a ouvir, sim – mas também a refletir sobre quem somos, o que valorizamos e como poderíamos ser percebidos por outros através das estrelas. O SETI nos convida a colocar a nossa ciência a serviço do espanto. E é aí, acho eu, que sempre pertenci.
Como se compara o estudo do nosso Sol à busca por vida além da Terra?
Madhulika: O nosso Sol é ao mesmo tempo comum e único. Estudá-lo nos dá um modelo – uma vela padrão, por assim dizer. Mas a busca por vida em outro lugar expande a nossa imaginação. Um é um ato de aprofundamento; o outro, de alargamento. Ambos exigem humildade. Um nos ensina como as estrelas funcionam; o outro nos pergunta por que importamos.
Qual é o papel da ciência solar na busca por mundos habitáveis?
Madhulika: A estrela de um planeta determina a habitabilidade. A ciência solar nos dá ferramentas para modelar a radiação estelar, os campos magnéticos e o fluxo de partículas – todos os quais afetam atmosferas, química e biologia potencial. Sem compreender o comportamento estelar, somos arquitetos cegos da habitabilidade.