A vida do capitão Frank Allica traça um rumo pelos oceanos do mundo. Desde sua adolescência patrulhando águas do Sudeste Asiático pela Marinha Real Australiana até comandar embarcações de expedição pela Antártica e pelo Pacífico, suas histórias abrangem meio século. Poucas pessoas viveram o mar tão profundamente; desde o serviço naval no Vietnã até velejar na réplica do Endeavour, as experiências de Frank moldaram uma carreira definida pela descoberta, curiosidade e exploração. Uma vida sob céus abertos, Frank agora junta-se à Swan Hellenic como palestrante convidado, refletindo sobre as jornadas que continuam a inspirá‑lo.
"Quando percebi que alguém realmente me pagaria para estar na água, a escolha de ir para o mar foi quase uma conclusão inevitável."
Olá, Frank! O que primeiro o inspirou a ir para o mar e iniciar uma carreira marítima tão notável?
Frank: Quando criança, minha família passava todas as férias de verão acampando junto ao mar todos os anos por quase dois meses. Sempre tivemos barcos, veleiros e todos os apetrechos, e passávamos a maior parte do tempo na água. Quando percebi que alguém realmente me pagaria para estar na água, a escolha de ir para o mar foi quase uma conclusão inevitável. É uma decisão da qual nunca me arrependi.
Como suas experiências navais durante a Confrontação Indonésia e o Vietnã moldaram sua perspectiva sobre liderança e a vida no mar?
Frank: Foram dias muito iniciais. Eu tinha apenas 18 anos quando voei para Singapura para me juntar ao varredor de minas HMAS Teal, que patrulhava as águas do recém‑criado país da Malásia. Foi uma curva de aprendizado íngreme, mas muito divertida, pois vários dos meus colegas do curso da marinha também serviam nas embarcações lá. Em terra, nos envolvíamos nas normais encrencas da juventude tardia.
O Vietnã foi um pouco diferente. Eu tinha 22 anos e era um tenente recém‑promovido, empregado principalmente como oficial de vigia no convés da ponte do navio. Passávamos 30 dias na "linha de artilharia" (uma posição naval na costa do Vietnã onde os navios prestavam apoio contínuo de artilharia às tropas terrestres), depois voltávamos para a Baía de Subic, nas Filipinas, por cinco dias para manutenção e guarda do navio antes de retornar à linha. Apesar de sua sofisticação, o navio era usado como uma plataforma móvel de bombardeio. Disparamos 17.000 projéteis naquele período de seis meses. Na época parecia que estávamos fazendo a coisa certa. Agora sabemos melhor. O que era essencialmente o desejo vietnamita de sacudir as correntes do colonialismo, nos foi dito que era o avanço do comunismo. O que aprendi? Não siga cegamente os americanos para uma guerra.

O que o atraiu inicialmente para o mundo dos cruzeiros de expedição e, eventualmente, para a Swan Hellenic?
Frank: Quando finalmente deixei a Marinha Real Australiana após 28 anos, passei quatro anos no mundo comercial como gerente de marketing de uma empresa de comunicações e eletrônica. Infelizmente, a empresa entrou em processo de recuperação judicial e procurei uma alternativa. Um amigo ligou para mim da Indonésia e perguntou se eu gostaria de ser o capitão em segundo (staff captain) do Bali Sea Dancer, um pequeno navio que navegava duas vezes por semana de Bali até a Ilha de Komodo. Pedi demissão no dia seguinte e estava em Bali em menos de uma semana.
A empresa expandiu, comprou outro navio, alguns oficiais pediram demissão e, em menos de um ano, eu era o comandante sênior. Vinte anos depois me aposentei, tendo trabalhado como capitão em várias empresas dedicadas a cruzeiros de expedição. Foi uma carreira maravilhosa e repleta de acontecimentos que me levou a destinos únicos em todo o mundo e me colocou em contato com oficiais, tripulação e equipe de expedição de todas as origens – uma jornada mágica.
Um contador de histórias no mar
Você navegou por algumas das regiões mais remotas do mundo — há algum destino que sempre o deixa sem fôlego?
Frank: A Antártica tem de ser minha resposta. Num dia ensolarado e calmo, ela literalmente tira o fôlego. Mas há muitos lugares maravilhosos – o Alasca e, em particular, a Indonésia, são meus favoritos.
Qual é o seu segredo para manter o público interessado durante suas palestras?
Frank: Acho que terei de aprender, pois esta é minha primeira experiência como palestrante convidado. Como capitão falei com passageiros muitas vezes e mantinha as falas curtas, concisas e com um pouco de humor. Acredito que brevidade e humor ajudam bastante a manter a atenção do público. Ser o capitão traz automaticamente certa atenção, embora seja fácil perdê‑la. Talvez seja aí que a brevidade entre.
Qual viagem ainda lhe parece a aventura de uma vida?
Frank: Provavelmente minha viagem de quatro meses da Inglaterra à Austrália em 1987 a bordo do Young Endeavour, seguindo a rota tradicional de vela. Mas navegar na Antártica, no Alasca, através das cadeias de ilhas do Pacífico Sul e pelas belas águas arquipelágicas da Indonésia também parece viagens de uma vida.
Como alguém que testemunhou a evolução da navegação ao longo de décadas, quais mudanças na tecnologia ou na cultura mais o surpreenderam?
Frank: Estive muito envolvido em velejar embarcações de vergas quadradas. Em 1987 a Grã‑Bretanha presenteou a Austrália com o Young Endeavour, um navio‑escola a vela oferecido aos jovens da nação para comemorar o Bicenário do assentamento britânico. Fui selecionado como imediato para a viagem de entrega da Inglaterra à Austrália e mais tarde me tornei o primeiro oficial comandante australiano após sua entrega pelo Príncipe de Gales em Sydney.
Esse papel me trouxe para o lado comercial do transporte marítimo, bem como para o mundo do treinamento em vela e essa fascinante, histórica forma de arte marinheira. Em 2019 fui contratado como comandante da réplica do Endeavour e a conduzi à Nova Zelândia para o Tuia 250 – a comemoração da chegada de Cook em 1769 e seus primeiros encontros com os Māori. O Endeavour é velejado exatamente como era na época de Cook. Compará‑lo com embarcações e navegação modernas é notável.

Memórias e significados do Pacífico
Ao imaginar velejar entre os karsts calcários e as lagoas turquesa de Raja Ampat, o que você espera que os hóspedes levem dessa experiência?
Frank: A beleza de Raja Ampat, sua extraordinária diversidade de corais e peixes, e suas águas pristinas são incomparáveis. Espero que nossos hóspedes sintam uma sensação de contentamento por terem explorado uma das regiões marinhas mais belas do mundo. Queremos partilhar a beleza das ilhas, sua singularidade e a incrível variedade de vida daqui – mais espécies do que em qualquer outro lugar do planeta. Para mim, estar rodeado por tamanha beleza natural sempre me faz sentir privilegiado.
Ao explorar lugares como Rabaul ou a Ilha Kennedy, como você conecta os hóspedes à poderosa história da Segunda Guerra Mundial na região?
Frank: A Ilha Kennedy é uma história que ressoa com todos. A maioria já ouviu falar do presidente John F. Kennedy, mas poucos conhecem os detalhes de seu serviço durante a guerra. Ele comandou um barco patrulha na Segunda Guerra que foi abalroado por um destróier japonês, resultando na perda de tripulantes. O heroísmo de Kennedy ao nadar desde a ilha, juntar‑se aos habitantes indígenas locais e, eventualmente, trazer outro barco patrulha para resgatar sua tripulação é verdadeiramente notável – algo comovente.
Rabaul é fascinante por sua história na Segunda Guerra Mundial – foi a maior base japonesa no Pacífico Sul – e igualmente porque foi construída dentro da caldeira de um vulcão ativo que entrou em erupção duas vezes na memória viva, destruindo a cidade.
O que você acha mais comovente ao visitar as vilas do Rio Sepik, onde costumes ancestrais ainda vivem hoje?
Frank: O que mais me comove são as pessoas. As comunidades da Papua‑Nova Guiné ainda vivem muito como seus ancestrais viveram por milênios. São pessoas belas – não na aparência, mas na alma. Dedique tempo para se envolver com elas e você ouvirá suas histórias.
O Sepik também me traz lembranças de uma viagem que fiz em 1969 como jovem subtenente a bordo de um barco patrulha com destino a Ambunti. Foi a maior distância que qualquer embarcação da Marinha Real Australiana já havia percorrido – cerca de 230 milhas náuticas rumo ao interior e 180 pés acima do nível do mar.

Aprendendo com a jornada
As paisagens em Papua‑Nova Guiné vão de vulcões ativos a baías repletas de corais – quais partes mais ressoam com você?
Frank: Ambas ressoam comigo. Adoro os atóis de coral – em navios de expedição mergulhei com cilindro em muitos desses locais remotos e pristinos e raramente fiquei desapontado. Ainda assim, é impossível não ficar impressionado com o poder e a majestade dos vulcões que formam muitas dessas ilhas e são a gênese de sua criação.
Como você descreve a sensação de descoberta que os hóspedes sentem ao conhecer comunidades locais pela primeira vez?
Frank: Viajantes experientes já terão alguma compreensão sobre encontrar e interagir com povos indígenas. Para os menos familiarizados, recomendo ser gentil – inicie uma conversa se puder e peça sempre permissão antes de tirar fotos, mesmo que seja apenas por meio de linguagem de sinais. Esse tipo de interação traz uma verdadeira sensação de descoberta e, esperançosamente, uma experiência gratificante.
Quando você sobe para falar a bordo, o que espera que os hóspedes levem de suas palestras e histórias?
Frank: Espero que adquiram algum conhecimento da região, de seu povo, de sua história recente, do que aconteceu aqui na Segunda Guerra Mundial e da diversidade da natureza. O mais importante para mim é que gostem das minhas palestras, que elas enriqueçam sua viagem e contribuam para o prazer geral do cruzeiro por esta parte tão especial do mundo.