Após décadas estudando a reprodução cooperativa em aves e a evolução de novas espécies de rãs, e com um doutorado em biologia, além de diplomas em zoologia, genética e bioquímica, Uli Reyer agora partilha seu conhecimento a bordo de cruzeiros de expedição. Suas palestras combinam profundo conhecimento científico com uma narrativa acessível, convidando os hóspedes a ver o mundo polar não apenas como um destino, mas como um sistema vivo moldado pela evolução, pelo comportamento e por mudanças, tanto naturais quanto causadas pelo homem.
"Eu não queria apenas ver a natureza — eu queria entender por que ela é assim."
"Para um cientista como eu, os desertos são um paraíso."
Olá, Uli! O que continua a atraí-lo de volta ao Ártico?
Uli: Sempre fui fascinado por desertos — tanto de areia quente quanto pelos desertos frios de gelo e neve. Eles me fascinam porque, à primeira vista, parecem monótonos e sem vida, mas numa inspeção mais atenta revela-se uma diversidade fascinante — diferenças sutis nas formações geológicas, adaptações especiais de plantas e animais e, às vezes, até vestígios ocultos de uma presença humana anterior. Para um cientista como eu, os desertos são um paraíso. Após muitas viagens aos desertos quentes — o Saara, o Atacama, o Taklamakan chinês, o interior da Austrália — descobri o Ártico como meu paraíso há alguns anos.
O que despertou inicialmente sua fascinação pelo mundo natural?
Uli: A natureza fez parte da minha vida desde o início. Cresci numa fazenda perto de Hamburgo e passei muito tempo caminhando e observando aves no campo com minha família. Tive também professores de biologia inspiradores na escola. Essa exposição precoce permaneceu comigo e moldou minha escolha por estudar biologia.
Como evoluiu seu trabalho sobre reprodução cooperativa, e como lugares como o Quênia e a Austrália o influenciaram?
Uli: Experimentei muitos campos da biologia durante meus estudos — desde biologia marinha até observatórios de aves — antes de escolher o Instituto Max Planck de Fisiologia do Comportamento. Era um centro de ecologia comportamental, que encarava o comportamento animal como adaptação evolutiva. A abordagem exige trabalho de campo, o que me convinha perfeitamente. Fiquei muitos anos lá, conduzindo um estudo de longa duração no Quênia e outro mais curto na Austrália. Essas experiências me convenceram de que compreender o comportamento significa estudar os animais em seus ambientes naturais. Como resultado, todos os projetos que iniciei e supervisei após minha nomeação na Universidade de Zurique também foram caracterizados por um vínculo estreito entre comportamento e ambiente.
Por que é tão importante ligar comportamento, genética, ecologia e evolução?
Uli: O que vemos em animais e plantas hoje — seja no Ártico, nos trópicos, em terra ou no oceano — é moldado pela evolução: variação genética filtrada pela seleção natural. Para entender verdadeiramente uma espécie, é preciso estudar todas essas camadas. Isso significa que o que observamos hoje só pode ser plenamente compreendido se também conhecermos o passado. Não é apenas acadêmico. A conservação, a criação de animais e outras áreas aplicadas também dependem de saber como as espécies funcionam e onde estão os limites da adaptação devido à constituição genética e ao desenvolvimento e às restrições evolutivas.

Unindo mundos com palavras
Por que é importante para você levar a ciência além do laboratório e para o dia a dia?
Uli: A ciência deve beneficiar a humanidade de alguma forma. Às vezes, como na medicina, isso parece claro. Nas ciências básicas, que incluem o tipo de pesquisa que realizei, existe também a possibilidade de que algumas descobertas sejam aplicadas mais tarde (por exemplo, à conservação), mas o objetivo primário é entender as leis e relações fundamentais da natureza. As pessoas são curiosas — leem livros de divulgação científica e assistem a documentários. Vejo a divulgação científica como um enriquecimento cultural, como a ópera ou o teatro. Pode não ser "útil" no sentido estrito, mas enriquece nossas vidas.
Viajar é uma extensão natural de sua mentalidade científica?
Uli: Na verdade, acho que é o contrário. Foram as caminhadas e as férias em família que primeiro despertaram minha curiosidade — eu não queria apenas ver que a natureza é como é, eu queria entender por que ela é assim. E essa curiosidade nunca cessou. É a força motriz que me tornou cientista e que me levou a ser palestrante convidado em cruzeiros de expedição. Essas viagens permitem-me conhecer novos lugares, compartilhar ideias com outros viajantes e manter a curiosidade viva.
Como você se prepara para uma viagem? Você se adapta a diferentes públicos?
Uli: Meu objetivo é sempre o mesmo: fazer as pessoas dizerem, “Isso foi interessante, informativo e divertido.” Claro que ajusto conforme o público. Hóspedes de cruzeiros precisam de uma abordagem diferente dos estudantes de biologia. Mas, como tenho décadas de experiência em ambas as áreas, não é difícil escolher o estilo apropriado. Minhas palestras são adaptadas à região — por exemplo, falo sobre renas em Svalbard ou bois-almiscarados na Groenlândia ao explicar os ecossistemas árticos.
Você é conhecido por desmistificar mitos. Qual é uma concepção equivocada comum sobre o Ártico?
Uli: A Swan Hellenic chama isso de desmistificação por causa do meu livro sobre criaturas lendárias, como unicórnios e dragões. Mas no Ártico, uma concepção equivocada comum é que ele ainda é intocado. Isso não é mais verdade. Mudanças climáticas, poluição, espécies invasoras e excesso de turismo são ameaças reais. Uso minhas palestras para abordar essas mudanças — e o papel que nós desempenhamos nelas.

Clareza em lugares selvagens
Há animais polares que ainda o surpreendem?
Uli: A própria paisagem de deserto frio me fascina porque permite descobertas e percepções surpreendentes repetidas vezes. Mas sim, ainda me fascinam certas espécies: ursos-polares, bois-almiscarados, raposas-do-ártico, baleias e morsas. Também o mundo das aves marinhas — elas realmente dão vida à paisagem durante a estação reprodutiva de verão.
Como você torna a ciência complexa acessível a bordo?
Uli: Sempre começo com algo familiar — uma experiência partilhada ou uma observação comum. A partir daí, explico esse detalhe em um contexto mais amplo, por exemplo com uma lei biológica básica da fisiologia ou da ecologia. Depois construo pontes para descobertas relevantes de outras disciplinas, como pesquisa comportamental, genética e evolução. Também uso recursos visuais — imagens, vídeos, animações — e misturo humor e interação. Isso mantém tudo envolvente, mesmo para quem é novo no assunto.
Os cruzeiros de expedição aumentam a conscientização sobre as mudanças climáticas e a conservação?
Uli: Sim, essas viagens sem dúvida têm o potencial de aumentar a conscientização. Como diz o ditado: “Você só protege aquilo que conhece e ama.” Em meus cruzeiros, os hóspedes frequentemente me dizem que não haviam pensado muito sobre conservação antes. Depois de ouvir as palestras e ver o ambiente em primeira mão, eles querem promover mudanças. Nem todos agirão, mas se alguns o fizerem — e talvez inspirem outros a repensar suas atitudes e ações — então a viagem terá um impacto duradouro.
Você falará em inglês desta vez — a língua afeta seu estilo de ensino?
Uli: Nesta viagem, tudo será exclusivamente em inglês, pois essa é a língua usada a bordo dos navios da Swan Hellenic. Mas estou sempre disponível para hóspedes de língua alemã em situações informais — durante desembarques em terra, refeições e em outros momentos. Para mim, alternar entre idiomas não muda a forma como ensino, porque me comuniquei em ambas as línguas por anos como professor universitário em Zurique.

Mentes viajantes, mundos em mudança
Que tópicos você está ansioso para destacar?
Uli: Entre os tópicos que destacarei estão como os ecossistemas do Ártico diferem dos mais ao sul — mudanças sazonais dramáticas e fauna única em lugares como Svalbard, Islândia e Groenlândia. Esses temas ajudam a explicar como as espécies se adaptam ao ambiente e onde estão seus limites. Também falo sobre mudanças climáticas em uma palestra chamada 'O Urso Polar — Um Ícone das Mudanças Climáticas'. Nela, também questiono visões extremas e unilaterais e insto as pessoas a se concentrarem em fatos em vez de emoções.
O que você espera que os hóspedes da Swan Hellenic levem consigo após o tempo com você?
Uli: Uma apreciação pela beleza das áreas visitadas e pela fascinante variedade de plantas e animais encontradas ali. Um conhecimento e compreensão melhores dos ecossistemas em geral e dos ecossistemas árticos em particular. E uma consciência da vulnerabilidade ambiental e da necessidade de proteção urgente e imediata.
O que o mantém inspirado após uma vida dedicada à ciência?
Uli: Como cientista, você não abandona a curiosidade ao se aposentar. Ainda quero aprender, explorar e fazer perguntas. Cada viagem traz algo novo — mesmo em lugares que já visitei antes, como Svalbard. Também aprendo com hóspedes e colegas. Alguns levantam ideias que eu nunca havia considerado. Outros sabem muito mais sobre essas regiões do que eu. Isso é o que mantém tudo empolgante!