Entrevistas

Uma vida moldada pela serendipidade com o antropólogo Wade Davis

10 de fevereiro de 2026|12 min de leitura

Wade Davis dedicou a vida a seguir os fios da cultura, da história e da conexão humana. O que começou como um fascínio de infância pelo mundo do outro lado da rua se transformou em uma carreira dedicada a viajar para comunidades remotas, ouvir com atenção e compartilhar com públicos do mundo todo o que descobriu. Desde os anos em que foi Explorer-in-Residence da National Geographic até o tempo em que lecionou para milhares de jovens estudantes, Wade carregou uma única missão: revelar a beleza, a resiliência e a genialidade das culturas humanas. Nas viagens da Swan Hellenic, ele leva esse espírito para o mar. Leia a seguir como Wade reflete sobre a serendipidade, a arte de contar histórias e a profunda satisfação de encontrar viajantes curiosos, que querem compreender o mundo em vez de simplesmente passar por ele.

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“A vida não é linear. Ela está cheia de reviravoltas inesperadas, e você só precisa manter o coração aberto quando as oportunidades surgirem.”

Oi, Wade! O que despertou, em primeiro lugar, seu fascínio pelas culturas e pelos diferentes modos de vida?

Wade: Bem, sabe, eu sempre digo aos jovens que a vida não é linear. Ela está cheia de reviravoltas inesperadas, e o que realmente precisamos fazer é manter o coração aberto quando essas oportunidades surgirem. Cresci em Quebec, na época das “duas solidões”, quando franceses e ingleses simplesmente não se falavam. A situação ficou bastante violenta. Houve lei marcial em 1970, bombas e tanques nas ruas. Para o Canadá, foi algo excepcional. Cresci em um subúrbio de língua inglesa, plantado como um furúnculo na parte de trás de uma antiga vila francesa que remontava pelo menos ao século XVIII, e havia um bulevar que literalmente dividia a comunidade inglesa da francesa: o Boulevard Cartier. Minha mãe me mandava até a pequena mercearia de um casal de francófonos, e, desde os quatro ou cinco anos de idade, eu me sentava no banco, olhava para o outro lado da rua e pensava: “Do outro lado da rua há outra língua, outra religião, um modo de vida completamente diferente. Por que não me é permitido atravessar a rua?” Não vinha dos meus pais, vinha da sociedade. De certa forma, venho atravessando essa rua desde então.

E quais experiências aprofundaram essa curiosidade e moldaram o caminho que você acabou seguindo?

Wade: Bem, um segundo momento decisivo foi quando minha mãe insistiu que o espanhol era a língua do futuro. Ela trabalhou o ano inteiro para me mandar à Colômbia quando eu tinha catorze anos. Os outros garotos canadenses de lá sentiam saudade de casa, mas eu sentia que finalmente tinha encontrado um lar. Estava extasiado de felicidade. Era a intensidade do espírito colombiano, a compreensão da fragilidade da vida, uma aceitação tranquila das fraquezas humanas. Hoje, estou com quase 72 anos, e sou cidadão colombiano honorário. A Colômbia faz parte da minha vida desde então.

Quando a antropologia entrou em cena para você pela primeira vez?

Wade: Também foi serendipidade. Eu costumava combater incêndios florestais, e nossos acampamentos de combate ao fogo estavam cheios de fugitivos do recrutamento militar para a Guerra do Vietnã. Éramos rapazes canadenses obedientes, e eles mandavam nossos chefes às favas: era irresistivelmente carismático. Um deles tinha uma edição da revista Life com a greve estudantil de Harvard na capa, e, do jeito que só os adolescentes pensam, eu pensei: “Essa deve ser a faculdade que você frequenta para ficar descolado como esses caras.” Então me inscrevi e fui aceito. Quando cheguei a Boston, aos dezessete anos, meu alojamento ainda não estava aberto e eu não tinha dinheiro, então um pastor me acolheu por uma semana. Naquele ano, fiquei radicalizado e passei a maior parte do tempo arranjando encrenca. No dia seguinte era o dia da escolha da especialização, e eu não tinha pensado nisso. Saí do Museu de Etnologia e esbarrei em um amigo. Perguntei o que ele estava escolhendo. “Antropologia”, respondeu. Perguntei o que era aquilo. Ele disse que você lia sobre indígenas, e, como Forrest Gump, eu disse: “Isso serve.”

O que, afinal, levou você da sala de aula à Amazônia?

Wade: Depois de um ou dois anos, eu queria viver com povos indígenas, e não apenas ler sobre eles. Fui ver Richard Evans Schultes. Disse que tinha economizado dinheiro e queria ir à Amazônia. Ele olhou para uma pilha de espécimes de plantas e disse: “Bem, filho, quando você quer ir?” Duas semanas depois, eu aterrissava na Colômbia, com destino à Amazônia.

Um começo inesperado

Como você passou da antropologia para a narrativa em escala global?

Wade: Costumo me descrever como um contador de histórias. Eu não me sentia atraído por ensaios acadêmicos que ninguém lia. As questões que enfrentávamos (a diversidade biológica, a perda de línguas, a perda de culturas) eram importantes demais para ficar confinadas na torre de marfim. Quando era estudante de pós-graduação no Haiti, meu financiamento secou, então procurei um agente literário em Londres e consegui meu primeiro contrato de livro. Escrevi A Serpente e o Arco-Íris, que vendeu quase meio milhão de exemplares.

A National Geographic se tornou uma parte importante da sua vida, não é mesmo?

Wade: Sim. Um artigo de revista que escrevi sobre culturas ameaçadas e línguas em extinção levou a instituição a me recrutar. Eles queriam mostrar que não apenas relatavam ciência, mas também a geravam. Recrutaram sete Explorers-in-Residence: Jane Goodall, Sylvia Earle, Johann Reinhard e outros. Tive a sorte de ser o antropólogo. Minha missão (literalmente, estava no meu contrato) era mudar, em uma década, a forma como o mundo enxerga e valoriza a cultura.

Então, em que consistia essa missão?

Wade: Os contadores de histórias mudam o mundo. Não precisávamos de mais conferências. Os políticos seguem, raramente lideram. Queríamos mostrar às pessoas a lição central da antropologia: o mundo em que você nasceu é apenas um modelo cultural, e outros povos não são tentativas fracassadas de ser modernos. Embarquei em jornadas pela etnosfera. Levei públicos à Polinésia para navegar com os navegadores polinésios, ao Alto Ártico, ao Himalaia, ao outback australiano. Quando escrevi sobre línguas ameaçadas, em 1998, os linguistas já sabiam que metade das línguas do mundo não estava sendo ensinada às crianças, mas ninguém dizia nada por causa do domínio de Noam Chomsky. Eu não tinha nenhum interesse naquele meio, então podia dizer o óbvio. Isso ajudou a romper a represa.

Como esses anos moldaram o seu trabalho e a forma como você se conecta com as pessoas hoje?

Wade: Ao longo desses anos, escrevi muitos livros, incluindo In the Silence. Fiz cerca de 40 filmes. Dei de 50 a 60 palestras por ano, e já ministrei bem mais de 2.000 palestras. Mesmo como professor, meu trabalho era encher os olhos dos alunos de admiração e infectá-los com o vírus da tolerância. Os alunos ainda me escrevem dizendo: “Lembra quando você nos disse para seguir o nosso coração? Estou percorrendo o mundo.” Outro escreveu: “Fui adotado por um clã, não vou voltar para casa.” É mais gratificante do que qualquer prêmio literário. E eu respondo a todos os e-mails. Os jovens não estão realmente pedindo logística. Eles perguntam: “Eu tenho importância?” Se você não responde, é um tapa na cara.

Como você descreveria a sua abordagem ao conversar com viajantes em viagens como estas?

Wade: Minha atitude é que, em qualquer plateia, sempre haverá alguns que querem cada vez mais, e outros que querem cada vez menos. Os que querem menos podem parar de ouvir ou sair da sala sem causar nenhuma ofensa, ou simplesmente não comparecer às palestras, mas é preciso falar com quem está na viagem porque realmente quer aprender. A maioria das pessoas é entusiasmada, curiosa e fascinante. É uma conexão.

A alegria de contar histórias

Você ainda gosta de viajar para lugares onde nunca esteve antes?

Wade: Com certeza. Gosto de viagens a lugares que nunca visitei. Naquela primeira viagem, eu só tinha visitado um dos destinos antes. Isso era antes da internet, então eu levava malas cheias de livros e material de pesquisa, e passava a noite em claro respondendo a algum interesse de um passageiro ou a algo que tinha acontecido na viagem. Para mim, era um presente: me permitia mergulhar fundo na história que eu precisava contar no dia seguinte. Cada uma daquelas palestras que preparei se tornou parte do meu arsenal de narrativas de longo prazo. Lembro de estar na Botsuana, onde encontrei um livro ilustrado muito bom sobre os San, os bosquímanos. Li a noite toda e escrevi uma palestra que dava a impressão de que eu tinha passado a vida inteira estudando-os. Aquelas passagens acabaram, dez anos depois, em um dos meus livros.

O que você mais gosta em ser palestrante convidado a bordo?

Wade: Gosto, antes de tudo, das pessoas que conheço. Gosto de bater papo, de me divertir, de tudo isso. Também gosto do desafio de extrair histórias de onde quer que estejamos indo. Procuro os pontos de “uau”. Se algo me faz dizer uau, vai fazer a plateia dizer uau também. No meu livro In the Silence, quis destilar o que a Primeira Guerra Mundial significou para as mulheres, e encontrei uma frase de Lady Diana Manners: “No fim de 1916, todo rapaz com quem eu já tinha dançado estava morto.” Certa vez, navegamos de forma inesperada até a Baía de Placentia. Os naturalistas entraram em pânico e falaram sobre espécies de aves, mas a Baía de Placentia foi onde Churchill se encontrou com Roosevelt, então contei a história da Segunda Guerra Mundial a partir daquele ancoradouro.

Por que se conectar com viajantes e estudantes é tão significativo para você?

Wade: Se você pode mudar uma vida, já vale a pena. Quando eu tinha 18 anos, em Washington, um amigo disse que eu deveria conhecer o secretário da Smithsonian. Achei que ele estava falando de um funcionário administrativo. Apareci de jeans e camiseta, e de repente eu estava no escritório de Dillon Ripley. Ele me tratou com gentileza e me convidou para almoçar. Entramos em um salão cheio de cientistas da Smithsonian, todos olhando para ele e para mim, aquele garoto. Eu flutuava de felicidade. Aquele encontro se tornou uma das histórias favoritas da família deles. Momentos assim importam. Eles ficam com você. É por isso que eu respondo a todos os e-mails e dou respeito a cada pessoa que conheço.

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