Conectando culturas pelo mar com Andreia Sousa
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Conectando culturas pelo mar com Andreia Sousa

17 de fevereiro de 2026|8 min de leitura

O trabalho de Andreia Sousa está no ponto de encontro entre a ciência marinha, a cultura e a conexão humana. Com raízes ao longo do Atlântico e paisagens insulares que moldaram seu caminho, ela reúne pesquisa, comunicação e criatividade para explorar como as pessoas se relacionam com o oceano. Da costa de Portugal às ilhas do Atlântico Norte, Andreia Sousa dedicou sua carreira a escutar com atenção o oceano e as comunidades que dependem dele. Sua abordagem combina ciência, arte e colaboração interdisciplinar, revelando como os ecossistemas marinhos e a vida humana estão profundamente entrelaçados. Para Andreia, compreender o oceano diz respeito tanto às pessoas quanto às espécies e às informações. Ao misturar ciência com conversa e criatividade, ela explora como o conhecimento, a cultura e o cuidado podem ajudar a construir futuros mais esperançosos para os ambientes marinhos.

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“Os oceanos nos conectam a todos. Eles regulam o clima da Terra, produzem oxigênio e garantem alimento, sustento e bem-estar a milhões de pessoas.”

Oi, Andreia! O que despertou, inicialmente, seu fascínio pelo oceano e por sua relação com as pessoas e a cultura?

Andreia: Nasci e cresci em Portugal, um país com uma relação histórica e cultural muito forte com o oceano. Por isso, desde muito jovem, passei bastante tempo na praia e perto do mar, e tive a sorte de fazer passeios de barco que me permitiram ter contato direto com a vida marinha. Esses primeiros momentos moldaram meu fascínio pelo oceano, sua biodiversidade e beleza, e a forma como ele está entrelaçado às vidas, identidades e culturas das pessoas.

Você passou grande parte da carreira na região da Macaronésia. O que torna essa parte do mundo um foco tão especial para a pesquisa marinha?

Andreia: A Macaronésia é uma região única, que inclui os arquipélagos da Madeira, dos Açores e das Canárias. Ela é considerada um hotspot de biodiversidade e uma região importante para os cetáceos, com muitas espécies de baleias e golfinhos usando essas águas como habitat, áreas de alimentação e rotas de deslocamento pelo Atlântico Norte. O que torna essa área tão especial é que ela abriga tanto espécies residentes, que vivem ali o ano inteiro, quanto espécies migratórias, que passam por ali durante suas jornadas de migração pelo Atlântico Norte. Isso faz dela um laboratório natural excepcional para estudar a biodiversidade marinha e o deslocamento e o comportamento de espécies altamente móveis.

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Laboratórios vivos

Como sua formação acadêmica e científica moldou a forma como você encara seu trabalho hoje?

Andreia: Minha experiência em diversas funções me ajudou a entender o que o público mais deseja saber, quais informações são importantes para ele e como o conhecimento científico pode ser comunicado de forma mais acessível e significativa. Para mim, a comunicação científica não se resume a compartilhar informações. Trata-se de construir pontes entre diferentes usuários do oceano, desde formuladores de políticas públicas até pescadores e comunidades locais. Isso é essencial para criar confiança e apoiar abordagens mais colaborativas, como a cogestão de áreas marinhas protegidas.

Como as comunidades insulares e costeiras nos ajudam a entender os impactos reais das mudanças climáticas nos ecossistemas marinhos?

Andreia: As comunidades insulares e costeiras costumam ser as primeiras a sentir os impactos das mudanças climáticas. O bem-estar delas depende diretamente de ecossistemas marinhos saudáveis, por isso as mudanças são percebidas cedo. Muitas dessas comunidades carregam gerações de conhecimento sobre o mar, algo incrivelmente valioso para os cientistas, pois as ajuda a identificar mudanças e a entender como os impactos climáticos podem se manifestar no futuro. As ilhas costumam ser vistas como laboratórios vivos das mudanças climáticas, onde soluções locais inovadoras são desenvolvidas, da conservação marinha liderada pela comunidade à restauração de ecossistemas. Essas experiências mostram como a adaptação pode se concretizar na prática e podem inspirar soluções em outras partes do mundo.

O que você espera que os hóspedes levem consigo das suas palestras e das experiências compartilhadas?

Andreia: Espero que eles saiam com uma compreensão mais profunda da riqueza do mundo natural e das histórias culturais e históricas a ele conectadas. Adoraria que encontrassem conhecimentos científicos que pareçam novos e surpreendentes e que despertem a curiosidade para continuar explorando, aprendendo e fazendo perguntas depois. Também espero que essas conversas convidem à reflexão sobre como nos relacionamos com o oceano e com o planeta no dia a dia, e como escolhas conscientes podem fazer diferença no mundo que compartilhamos e que queremos cuidar.

Você pode nos contar mais sobre a Upstand e como ela reúne pessoas para promover mudanças sociais e ambientais?

Andreia: Na Upstand, colocamos a conexão humana no centro de tudo o que fazemos, porque acreditamos que mudanças significativas acontecem por meio da confiança, do cuidado e do diálogo. Somos uma agência de impacto social especializada em pesquisa participativa, facilitação e design liderado pela comunidade. Apoiamos iniciativas mais inclusivas e adaptadas a cada contexto nas áreas de mudanças climáticas, mobilidade humana, biodiversidade oceânica e risco de desastres. Para isso, criamos espaços em que as pessoas podem compartilhar conhecimento e trabalhar juntas para apoiar a transformação social e ambiental.

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A arte como elo com o oceano

Seu trabalho muitas vezes une ciência e arte. Como a expressão criativa pode ajudar as pessoas a se conectarem mais profundamente com o oceano?

Andreia: A expressão criativa permite que as pessoas se conectem com o oceano de um jeito que vai além de informações e fatos. A arte cria conexões emocionais, sensoriais e imaginativas, despertando a curiosidade e o encantamento, o que nos ajuda a nos sentir parte do mundo natural. As práticas artísticas podem abrir espaço para novas formas de pensar que incluam a vida e as experiências de outras espécies e ecossistemas. Esse tipo de envolvimento torna os desafios ambientais mais pessoais e mais próximos da nossa vida e das nossas comunidades. Espero convidar as pessoas a práticas criativas simples, que lhes permitam experimentar e expressar a própria relação com o oceano. Esses momentos de criatividade podem transformar o aprendizado em algo vivido e sentido, e não apenas compreendido.

Você percebe que as pessoas reagem de forma diferente à ciência marinha quando ela é compartilhada por meio de narrativas ou da arte visual, e não de dados?

Andreia: Sim, muito. Quando dados científicos são integrados à narrativa e à expressão artística, conceitos abstratos ficam mais tangíveis e próximos para públicos diversos. A arte pode tornar temas complexos mais acessíveis e convidativos. Ela também estimula a participação ativa, o que promove o diálogo e cria espaço para a reflexão compartilhada, em vez de uma comunicação de mão única. As práticas artísticas tendem a ressoar em um nível mais pessoal, gerando curiosidade e uma conexão emocional com o tema.

Qual é a coisa mais inesperada ou engraçada que já aconteceu com você durante um trabalho de campo no mar?

Andreia: Há sempre algo inesperado quando se trabalha no mar. Nenhum dia é igual ao outro, e é isso que faz parte da magia. Um momento marcante foi nos Açores, quando achávamos que seria um dia muito tranquilo, sem avistamentos de baleias. Quando já estávamos prestes a voltar, um cachalote nos surpreendeu saltando fora d'água, um comportamento incomum para essa espécie. Foi como um presente do oceano!

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Onde a ciência encontra as pessoas

Você fala inglês, português e espanhol. Como isso ajuda você a criar pontes entre diferentes comunidades costeiras?

Andreia: Falar vários idiomas me permite me conectar de forma mais profunda com as pessoas, compreender perspectivas locais e compartilhar informações. Também me permite apoiar a colaboração entre regiões, tornando o conhecimento científico mais acessível e ajudando as comunidades a trocar experiências e soluções entre si.

Como você equilibra os lados científico e humano do seu trabalho ao falar sobre algo tão complexo quanto a adaptação climática?

Andreia: Para mim, os lados científico e humano da adaptação climática são inseparáveis. O conhecimento científico nos ajuda a entender o que está mudando e por quê, mas a dimensão humana mostra como essas mudanças afetam a vida das pessoas. Procuro comunicar a ciência com clareza, ao mesmo tempo que abro espaço para emoções, experiências e histórias locais. Esse equilíbrio ajuda as pessoas a enxergar a adaptação climática não apenas como um desafio técnico, mas como um processo coletivo e participativo que enfrentamos juntos.

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O que o oceano ensina

O que as pessoas podem esperar aprender sobre a biodiversidade marinha do Atlântico Oriental?

Andreia: As pessoas podem esperar aprender sobre a incrível biodiversidade marinha do Atlântico Oriental, de Portugal à África Ocidental. Vamos explorar como as mudanças climáticas estão afetando espécies e ecossistemas marinhos, como a distribuição das espécies está se deslocando e como as comunidades insulares e costeiras estão fortemente ligadas ao mar. Também compartilharei insights sobre como abordagens que unem arte e ciência podem ajudar as pessoas a se conectarem com os ambientes marinhos, além das dimensões sociais e culturais das mudanças nos meios de subsistência costeiros e das medidas de adaptação climática que estão sendo implementadas para enfrentar essas transformações.

Se você pudesse trocar de lugar com qualquer criatura do oceano por 24 horas, qual escolheria e por quê?

Andreia: Eu escolheria uma baleia-jubarte. Elas são famosas por seus cantos complexos e belos, que podem percorrer milhares de quilômetros pelo oceano. Adoro a ideia de experimentar o mundo por meio do som e de poder cantar através de bacias oceânicas inteiras!

Depois de anos de pesquisa e colaboração, o que dá esperança a você em relação ao futuro dos nossos oceanos e das comunidades que dependem deles?

Andreia: O que me dá mais esperança são as pessoas comprometidas, que se importam profundamente e trabalham ativamente por um futuro melhor. Acredito que a esperança é algo que praticamos, que alimenta a ação e inspira mudanças. Por meio da imaginação, da criatividade e da ação coletiva, podemos caminhar rumo a formas mais regenerativas de viver e reconectar-nos com o mundo mais-que-humano. Os oceanos nos conectam a todos. Eles regulam o clima da Terra, produzem mais da metade do oxigênio que respiramos e oferecem alimento, sustento e beleza a milhões de pessoas. Ver quantas pessoas trabalham para protegê-los me faz acreditar que um futuro mais saudável não é apenas vital, mas possível.

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